18.9.07

Hasta Siempre Cuba


Enquanto tirava esta fotografia não reparei numa senhora de idade avançada que esperava pacientemente que eu escolhesse o melhor enquadramento para então poder prosseguir o seu caminho.

- Perdon señora no habia reparado que estabas esperando.
- No te preocupes hijo mio, primero tira tu foto de El Comandante!

Sorriu-me, respondendo com um orgulho indisfarçável na voz e no olhar. Era velha, muito velha, o cabelo todo branco, os ossos salientes, as rugas, a pequenez, emprestavam-lhe a idade. Talvez oitenta anos. Talvez mais. As roupas pobres, os sapatos rotos e gastos como a pele, os sacos de plástico quase vazios que transportava nas mãos, as costas para sempre arqueadas, sugeriram-me uma vida de trabalho árduo, cheia de dificuldades e carências. Seria suposto, para mim, um português filho do pós 25 de Abril, um cidadão da união europeia, que estas pessoas que pouco têm e com tão pouco vivem, odiassem o Homem que comanda o destino do seu país há quase cinquenta anos. E no entanto não é isso que observo. Sinto nos seus olhares e nas respostas que me dão no abrigo da intimidade das suas casas particulares, um respeito e uma admiração genuína por um símbolo de uma Revolução que começou com a melhor das intenções. Liberdade e Igualdade para Todos. Depois… depois temos a História, que depois, quando o tempo deles e o nosso passarem, nos julgará a todos, deixando escrita, como sempre, a verdade dos vencedores.

Prometi a mim mesmo que nunca escreveria sobre política neste espaço. Pelos riscos que tal implica, pela falta de privacidade, pela falta de intimidade, por não me conhecerem bem, por ser mal interpretado, para não ser descontextualizado ou mal citado, pela falta de um olhar à minha frente.

Estou a faltar à minha promessa, “pêro todo es politico” diz-me o Ascânio, o meu novo amigo, 100% cubanito, como gosta de se auto-intitular, companheiro de mojitos e nosso chef de cozinha particular durante os últimos dias em Trinidad. E em Cuba esta é uma realidade ainda mais verdadeira. Não pretendo escrever nenhum manifesto. Tenho perfeita consciência que estou num regime ditatorial feroz e castrador da liberdade individual. “Todas las ditaduras son malas no importa las ideologias que lo sustenten” confidencia-me sinceramente outro amigo cubano durante o jantar. Quero apenas escrever e partilhar um pouco do que vi.

Vi mães que pediam leite para os filhos, vi o que é o racionamento pela primeira vez na minha vida, vi prateleiras e lojas vazias, vi uma economia paralela, vi carros podres que se arrastam nas ruas deixando atrás de si um rasto de fumo negro, as estradas esburacadas, a falta de sinalização, que não se desperdiça nada, que a necessidade aguça o engenho, vi o assédio e a prostituição implícita, o medo de falar, a propaganda, a omnipresença policial, o controle estatal, a prepotência militar, o mestrando em Sociologia que convidamos para almoçar e que envergonhado pede folhas, esferográficas e disquetes em vez de comida.
Mas também vi:
uma população educada, escolaridade obrigatória e gratuita, igual para todos os cubanos a partir dos três anos de idade, assistência médica sem custos para todos, que se é médico por vocação e por querer ajudar o próximo e não por qualquer status ou interesses financeiros porque muitas vezes o médico pede a comida que não tem ao camponês que mora ao lado, vi uma cultura efervescente, galerias de arte cheias, espectáculos de dança de grande qualidade, ouvi música em todo lado, vi que um tratador de cavalos que vive no vale mais isolado ou um simples torneiro mecânico têm mais consciência social e política que qualquer recém-licenciado em Direito de uma qualquer Universidade em Portugal, vi o orgulho, hoje possível, do pequeno camponês, nas suas três filhas, todas licenciadas. Não vi racismo, vi um povo mestiço. Vi Humanidade.

Vivi durante uma semana no bairro mais pobre e degradado de toda a minha vida. Vi crianças lindas. Vi sorrisos sinceros. Vi dignidade no olhar. Senti esperança.

Deixo Cuba com muito mais dúvidas do que quando aqui cheguei. Apenas tenho uma certeza: que compreendo muito melhor o médico argentino, Ernesto “Che” Guevara, se há gente que merece uma Revolução, são estas pessoas.
Miguel Sacramento




14 comentários:

Prima Inês disse...

Parabéns Miguel... Até fiquei com um nó na garganta... Impressionante. Tudo. Fiquei sem palavras...
Beijinho forte p os dois e continuem assim a contar-nos histórias do mundo ;)

Sound and Fury, signifying nothing disse...

Aqui vão os beijinhos de outra que ficou speechless. Era por este VOSSO (e nosso, dos do lado de cá) Património da Humanidade que tanto esperava. Continuem a trazê-lo aqui para este vosso e tão nosso espaço.

Prima Ana

Nélinha disse...

Quando li o teu texto não consegui escrever nada. É tão belo e profundo e revela tanto da pessoa que tu és! Também fiquei com um nó na garganta e (porque não dize-lo?)com uma lagrimita ao canto do olho. Mas não é de tristeza... Como calculas deixaste o daddy extremamente comovido. Tanto que não lhe saiem com facilidade as palavras que eu sei gostaria de te enviar.
Muitos beijinhos para os dois!

clara mãe disse...

Parabéns Miguel...
Adorei conhecer Cuba vista pelos teus olhos e excelente coração.
Beijos

Kaiser disse...

O texto descreve, na perfeição, a Cuba que também eu conheci.

Recordo-me do meu amigo Juan (curiosamente também mestrado em Sociologia) que me acompanhou pelas ruas de Havana com a sua mochila, as suas poucas folhas e o lápis gasto, muito gasto. Nessa mochila havia ainda um par de calças e uma t-shirt. Ah, não esqueçamos as chaves de casa. Estes, eram, na altura, todos os bens do Juan. Mas o bem mais precioso era a sua alegria e vontade de viver, saber, aprender, partilhar.

Um abraço, Juan!

A vocês os outros a continuação de uma boa viagem,

Anónimo disse...

Só para desanuviar...
E gajas b.?? Viste???

Mano velho

Cristina disse...

Ora aqui está uma prova (se alguma fosse precisa) de que o que interessa na viagem é o caminho percorrido e a forma como se percorre esse caminho. O teu texto sabe a Cuba. O teu olhar iluminou muitas fotografias que todos vimos mas poucos compreendemos. Que prazer é fazer esta viagem convosco.
Grande Beijo

Anónimo disse...

Cuba é nostalgia. Quem procura apenas o sol nesse pais, perde o calor das pessoas. As viagens não são apenas imagens, cheiros e sabores que nos ficam marcados na memória. São muito mais. O encontro com diferentes culturas enriquece o nosso espirito e obriga-nos a comtemplar o mundo de outra forma.
Na vossa crónica, reencontrei o espirito cubano e a alma de um povo que nunca esquecerei...
Boa viagem!

Petra, Lisboa

Anónimo disse...

Miguel...
As saudades da Clara revelam-se em mim em momentos de grande fragilidade... em mim isso não é frequente, mas acontece...
Este foi um desses momentos... é um privilégio grande tê-la como minha amiga... ainda maior o privilégio de te ter ao seu lado, a partilhar este marabilismo das palavras ditas pela voz do coração.
Cuba também me está no coração... quando se alia à presença de uma pessoa tão importante como a Clarita é irresistível o seu poder!
Poder vê-la pelos teus olhos, desta forma...
... Deixaste-me de lágrimas espalhadas pela cara toda!
Um beijo meus queridos
Patricia

Dénia disse...

depois de ler o teu texto nada do que possa dizer parece ser apropriado...
talvez só pedir que continuem a dar-nos este prazer de acompanhar-vos!

um grande abraço

GoVeRi disse...

nas tuas palavras sente-se a emoção que sentiste e que te revela, mais uma vez, como excelente pessoa, de coração enorme, porque te tenho.

obrigado, Amigo!

um abraço apertado!

cima disse...

Parabens ,Miguel afinal escreves melhor, muito melhor do que fotografas(estao bastante escuras as fotos, tambem pode querer dizer que tens de por poucos Kb)...muito bonito.

Laurita disse...

Só agora vejo esta mensagem...

Passou-se muito tempo...

Hei-me aqui... a passar mais uma noite acordada... Desta vez sem estudar... lendo uma mensagem que me fez chorar...(Duas da madrugada...)

Eu também estive lá... senti o mesmo... (Na Argentina) Há pouco tempo que está em cartaz um filme argentino sobre Cuba... cheira-me a propaganda alemana ou soviética... tanto faz...

Como diz o teu amigo...
Todas as ditaduras são iguais...
todas começaram pregando grandes coisas...
Orwell sabia...

Onde é que vai dar essa gente... sei lá... mas con certeza merece um mundo melhor...
Tem educação, sim... tem orgulho...
mas a liberdade? a comida? a saude apenas para os estrangeiros?

Eu também vi espancar cubanos... enquanto nós, turistas, andávamos pela orla... É triste... foi forte...
mas vale a pena ver... tomara que um dia mude... Mas que não seja -também não- uma nova dança ao compasso do norte...

Será que desta vez vai dar certo?

Tânia disse...

Acabei de descobrir o vosso blog, e quando estava a "cuscar" o que por aqui se passava descobri na barra lateral "Cuba" que assim que vi cliquei ou não fosse um dos sitios que tenho mais curiosidade em conhecer, admito que tudo começou com um filme (Dirty Dancing 2) mas a verdade é que sempre que me falam de Cuba e vejo a paixão das pessoas por este país, a minha paixão tambem aumenta, e com a sua descrição acredite que aidna aumentou ainda mais, muito bem escrito, profundo e acima de tudo sincero. Confesso que não descobri ainda muito sobre vocês, por isso não sei até se é escritor ou não, mas senão for, lanço-lhe esse desafio, porque têm talento para isso!

Acreditem que ganharam uma seguidora!
Beijos e Boas viagens! =)