30.3.08
Um dos muitos cardumes que nos rodeavam
Histórias e Olhares:
10. Austrália,
11. Grande Barreira de Coral
Grande Barreira de Coral e Pequim
Concentro-me no espaço ínfimo entre mundos e vivo esse momento. Viajar tem destas alturas. Em que estamos apenas no meio.
Abro os olhos sem sono e mergulho no mar de coral. Ouço as cores, os peixes, a transparência. Não sei o que dizem. Entrei num mundo de outras histórias. A razão, as palavras, o poder do argumento ficaram no barco. Aqui entramos despidos de nós. Ouve-se com a pele, trocam-se os sentidos. É um peixe papagaio que me mostra o caminho. Espirais amarelas, azuis, negras, atravessam-me o horizonte. São ritmos. E hábitos. E texturas. Enormes e invisíveis, que participam ou se disfarçam, que aparecem do fundo ou do improvável. Vidas que me espantam a cada gesto de diferença. E eu, sem peso, sem respiração, sou mais do que um silêncio apesar de sem voz.
Abro os olhos sem sono e dou um passo para a rua. Oiço o vermelho, as vozes, o fumo. Não sei o que dizem. Entro num mundo de outras histórias. A opinião, as palavras, o poder do meu querer ficaram no quarto. Aqui entramos despidos de argumentos. Um casal oferece ao filho um papagaio de papel, uma explosão de cores presas à mão por um fio. Sigo-o por um instinto. E estou na multidão. De hábitos. E ritmos. E texturas. Tudo está a acontecer. Vende-se o puro e o improvável, com gritos ou no disfarce. Jogos, comida e meias juntam-se aos cantos de um qualquer fundo. A cada passo uma tradição, uma vida que se junta a outro alguém. Do nada, um fogo-de-artifício espanta os gestos de tanta diferença. E eu, com o peso dos cheiros e sem respiração, sou mais um silêncio que não precisa de voz.
Viajar tem destas alturas. Em que não há mundos que nos separem.
Abro os olhos sem sono e mergulho no mar de coral. Ouço as cores, os peixes, a transparência. Não sei o que dizem. Entrei num mundo de outras histórias. A razão, as palavras, o poder do argumento ficaram no barco. Aqui entramos despidos de nós. Ouve-se com a pele, trocam-se os sentidos. É um peixe papagaio que me mostra o caminho. Espirais amarelas, azuis, negras, atravessam-me o horizonte. São ritmos. E hábitos. E texturas. Enormes e invisíveis, que participam ou se disfarçam, que aparecem do fundo ou do improvável. Vidas que me espantam a cada gesto de diferença. E eu, sem peso, sem respiração, sou mais do que um silêncio apesar de sem voz.
Abro os olhos sem sono e dou um passo para a rua. Oiço o vermelho, as vozes, o fumo. Não sei o que dizem. Entro num mundo de outras histórias. A opinião, as palavras, o poder do meu querer ficaram no quarto. Aqui entramos despidos de argumentos. Um casal oferece ao filho um papagaio de papel, uma explosão de cores presas à mão por um fio. Sigo-o por um instinto. E estou na multidão. De hábitos. E ritmos. E texturas. Tudo está a acontecer. Vende-se o puro e o improvável, com gritos ou no disfarce. Jogos, comida e meias juntam-se aos cantos de um qualquer fundo. A cada passo uma tradição, uma vida que se junta a outro alguém. Do nada, um fogo-de-artifício espanta os gestos de tanta diferença. E eu, com o peso dos cheiros e sem respiração, sou mais um silêncio que não precisa de voz.
Viajar tem destas alturas. Em que não há mundos que nos separem.
C.
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Histórias e Olhares:
10. Austrália,
11. Grande Barreira de Coral
24.3.08
Tibete
Não sou jornalista. Acrescento sempre palavras ao que vejo. E guardo outras, num recanto do meu egoísmo. Não acreditem no que escrevo, pensem apenas. Porque pode ser verdade.
Quem é que nunca sentiu a surpresa de uma notícia? Ou o susto de uma bomba de Carnaval? Ou encontrou um conhecido num lugar improvável? Ou se queimou, se arrependeu, pisou um buraco? Momentos… momentos… momentos… em que não temos tempo para controlar a parte de dentro do corpo. Era dia 10 de Março. E o maior desses momentos aconteceu. Descíamos a rua do Mosteiro de Drepung, com dezenas de monges, em debates e amizades criadas pelo puro acaso durante todo esse dia. Um falava sobre a importância da data, outro de liberdade, da vida, de estarem a um passo de ter voz. Apenas voz. Nem cabíamos dentro da pele. Os únicos diferentes do meio, mas no meio. Entre sorrisos vermelhos e vestidos de confiança, faláv… Sinto um braço a puxar-me, a rua bloqueada, e tanta gente. Polícias de choque, militares, camiões, um barulho confuso a impedir o caminho para Lassa. E um braço. A insistir, a puxar-me. Num segundo levou-nos para o outro lado da rua. Vi que era um polícia. Não podem estar aqui. Continuem a andar. Do outro lado os monges, num silêncio cada vez mais afastado. Mais carros, e homens, e carros, e homens. Sem farda. Fecharam as lojas, fecharam as casas. Voltaram. Tiraram as pessoas das casas. Continuem a andar. Ninguém olhava para trás. O medo envolvia os corpos. O que se passa? Responderam-nos: um fogo; exercícios… duas vozes fardadas. Queríamos voltar para trás. Já não conseguíamos ver as caras, apenas roupas vermelhas abafadas por uma força violenta. Armada.
Foi o início. Sabemos que muitos desses monges morreram no final desse dia.
Após quilómetros a andar por estradas de terra não batida, a tentar inventar ruelas que nos levassem a testemunhar a prepotência militar e policial sobre pessoas desarmadas, descobrimos o pior. A nossa impotência. O bloqueio estendia-se ao inimaginável, até nenhum som vindo do Mosteiro se conseguir ouvir. Máquinas fotográficas inspeccionadas ao milímetro, questionados ao milímetro, desde esse instante, controlados ao milímetro. Telefones, internet, conversas, gestos e decisões. Tínhamos sido as únicas testemunhas do início, da violência utilizada sem justificações de defesa, da experiência que demonstraram, da rapidez com que limparam o local de olhos e provas, da postura silenciosa daqueles monges. Os sete dias até à chegada ao Nepal, por terra, a dormir em pequenas aldeias no meio dos Himalaias, ficaram marcados pela tentativa de criar medo. Presos nos quartos, revistados, identificação constantemente exigida na estrada e após a única consulta do e-mail, as horas que passámos na fronteira… Mas não foi o que mais me assustou. Foi a certeza do que vi: o controlo do povo chinês e tibetano levado ao extremo por violência e impunidade; a quantidade sem fim de agentes à paisana ou pessoas que a troco de uns sapatos novos falam do que se passa na casa ao lado; o medo; a propaganda; a confissão assustada de que a falta de direitos humanos ultrapassa o não ter pão. Aqui morre-se por ter opinião.
Tudo o resto que vivi no Tibete ultrapassa um texto legível… por enquanto. Mas tenho voz. E não me esqueço.
Texto: Clara Faria Piçarra
Fotografia (tirada instantes antes): Miguel Sacramento
8.3.08
Austrália
Foi na Austrália que me senti do outro lado do Mundo. Não apenas por me sentir longe, mas por termos vivido extremos: do fundo do mar ao calor seco de Uluru; do couchsurfing ao não sabermos se teríamos sítio onde dormir; do medo do confronto com os animais mais perigosos do planeta e a emoção de estar com Koalas e Cangurus. Foi onde vimos velhos inimagináveis em matinais de surf, condutores de autocarros que nos desejavam “have a nice day” e onde quase dei a vida por um pastel de nata. Foi onde tive a notícia da morte de um amigo. E percebi que o mundo não é pequeno.
C.
Buondi Beach
Chegámos a Sydney no dia de Natal. Nesta altura do ano Sydney é uma cidade sobrelotada. Juntam-se as férias escolares de Verão, a famosa festa de passagem de ano, os saldos do “boxing day”, a partida de uma das maiores regatas do mundo, a Sydney-Hobart Race e a fase final do Campeonato do Mundo de Criquete (para os australianos, o evento desportivo mais importante do ano). Não havia lugar para ficarmos, nem carros para alugar, não tínhamos sítio onde dormir.
Foi o Neil que nos salvou! Não se importou que já tivesse o Chris como "couchsurfer", que os filhos e o irmão também estivessem lá em casa... não só nos deu uma cama para dormir como nos fez sentir parte da família. São pessoas assim que gostávamos de continuar a conhecer pelo mundo.
Petersham
Aí está ele!
Bells Beach Surfing Reserve
Tunning em Melbourne
Melbourne
Foram dias de tratamento VIP só comparados à hospitalidade da Velosa Family em Brisbane! Ainda hoje sonhamos com aquele bacalhau com natas... Obrigado, Ema! E obrigado, João, por carregares com o "saco levezinho" das pranchas até Portugal!
Steve Irwin Zoo, a norte de Brisbane
Superbanks, Gold Coast
Austrália e um qualquer outro lugar
Foi há muitos anos. E a minha alma tinha morrido.
Era um nada. E dor. Tinha deixado de ser.
Foi quando percebi que me pegavam ao colo, que me levavam ao ombro, que me alternavam o peso numa caminhada impossível até um estádio que, para mim, tinha deixado de ser olímpico. Desconheciam que não me levavam inteira, cada um carregava apenas um estilhaço.
Saio do carro. Descalça. Piso a areia com força. Com força. Como se quisesse atravessar o mundo. Ouço os gritos de um grupo de adolescentes. Não percebo como. Eu continuo calada. Hoje soube que morreu um amigo.
Ando até molhar os pés. Por momentos esqueço-me que estou na Austrália. Não penso em tubarões nem em experiências de vida. Não me lembro. Não ouço. Não acredito. O mar parece-me muito maior. Quase impossível.
Foi há muitos anos. E a minha alma tinha morrido.
Carregavam-me quando era apenas estilhaços. E riram-se. Não sabiam que nesse momento davam sentido ao meu reinício.
Mergulho até não aguentar não respirar. Estou viva. E sei que a partir de hoje sou eu que carrego um estilhaço. De um amigo.
C.
(Para ler também no Miniscente)
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