
Enquanto tirava esta fotografia não reparei numa senhora de idade avançada que esperava pacientemente que eu escolhesse o melhor enquadramento para então poder prosseguir o seu caminho.
- Perdon señora no habia reparado que estabas esperando.
- No te preocupes hijo mio, primero tira tu foto de El Comandante!
Sorriu-me, respondendo com um orgulho indisfarçável na voz e no olhar. Era velha, muito velha, o cabelo todo branco, os ossos salientes, as rugas, a pequenez, emprestavam-lhe a idade. Talvez oitenta anos. Talvez mais. As roupas pobres, os sapatos rotos e gastos como a pele, os sacos de plástico quase vazios que transportava nas mãos, as costas para sempre arqueadas, sugeriram-me uma vida de trabalho árduo, cheia de dificuldades e carências. Seria suposto, para mim, um português filho do pós 25 de Abril, um cidadão da união europeia, que estas pessoas que pouco têm e com tão pouco vivem, odiassem o Homem que comanda o destino do seu país há quase cinquenta anos. E no entanto não é isso que observo. Sinto nos seus olhares e nas respostas que me dão no abrigo da intimidade das suas casas particulares, um respeito e uma admiração genuína por um símbolo de uma Revolução que começou com a melhor das intenções. Liberdade e Igualdade para Todos. Depois… depois temos a História, que depois, quando o tempo deles e o nosso passarem, nos julgará a todos, deixando escrita, como sempre, a verdade dos vencedores.
Prometi a mim mesmo que nunca escreveria sobre política neste espaço. Pelos riscos que tal implica, pela falta de privacidade, pela falta de intimidade, por não me conhecerem bem, por ser mal interpretado, para não ser descontextualizado ou mal citado, pela falta de um olhar à minha frente.
Estou a faltar à minha promessa, “pêro todo es politico” diz-me o Ascânio, o meu novo amigo, 100% cubanito, como gosta de se auto-intitular, companheiro de mojitos e nosso chef de cozinha particular durante os últimos dias em Trinidad. E em Cuba esta é uma realidade ainda mais verdadeira. Não pretendo escrever nenhum manifesto. Tenho perfeita consciência que estou num regime ditatorial feroz e castrador da liberdade individual. “Todas las ditaduras son malas no importa las ideologias que lo sustenten” confidencia-me sinceramente outro amigo cubano durante o jantar. Quero apenas escrever e partilhar um pouco do que vi.
Vi mães que pediam leite para os filhos, vi o que é o racionamento pela primeira vez na minha vida, vi prateleiras e lojas vazias, vi uma economia paralela, vi carros podres que se arrastam nas ruas deixando atrás de si um rasto de fumo negro, as estradas esburacadas, a falta de sinalização, que não se desperdiça nada, que a necessidade aguça o engenho, vi o assédio e a prostituição implícita, o medo de falar, a propaganda, a omnipresença policial, o controle estatal, a prepotência militar, o mestrando em Sociologia que convidamos para almoçar e que envergonhado pede folhas, esferográficas e disquetes em vez de comida.
Mas também vi:
uma população educada, escolaridade obrigatória e gratuita, igual para todos os cubanos a partir dos três anos de idade, assistência médica sem custos para todos, que se é médico por vocação e por querer ajudar o próximo e não por qualquer status ou interesses financeiros porque muitas vezes o médico pede a comida que não tem ao camponês que mora ao lado, vi uma cultura efervescente, galerias de arte cheias, espectáculos de dança de grande qualidade, ouvi música em todo lado, vi que um tratador de cavalos que vive no vale mais isolado ou um simples torneiro mecânico têm mais consciência social e política que qualquer recém-licenciado em Direito de uma qualquer Universidade em Portugal, vi o orgulho, hoje possível, do pequeno camponês, nas suas três filhas, todas licenciadas. Não vi racismo, vi um povo mestiço. Vi Humanidade.
Vivi durante uma semana no bairro mais pobre e degradado de toda a minha vida. Vi crianças lindas. Vi sorrisos sinceros. Vi dignidade no olhar. Senti esperança.
Deixo Cuba com muito mais dúvidas do que quando aqui cheguei. Apenas tenho uma certeza: que compreendo muito melhor o médico argentino, Ernesto “Che” Guevara, se há gente que merece uma Revolução, são estas pessoas.
Miguel Sacramento